5 de fevereiro de 2013

Os 100 anos de Gonzaga e a questão dos ícones

Fui assistir ao filme “GONZAGA DE PAI PARA FILHO”, algo que me deixou bastante emocionado com o resgate da nordestinidade!
Gonzaga, muito mais que Nordeste, lembra SERTÃO… Sertão da simplicidade rude, mas da sensibilidade à flor da pele de quem usa a rudeza como amedrontadora defesa; que busca o colo da mãe de pele ressequida, a ninar o menino chorão com carinho e sacodes carinhosos de quem diz que alí não existe tanto espaço para tantos mimos de eterna proteção tacanha!
Sou daqueles que, por mais que o tempo passe, e por mais que nossas cidades sertanejas continuem as mesmas (com exceção de um asfaltamento aquí e alí…), vez por outra aceita convites ou se convida para retornar à região onde trabalhou em 1984 com o advento da aprovação no concurso do fisco! Sertão lembra hospitalidade, ternuridade às vias da abertura de privacidade… Sim! O sertanejo, para vê-lo à vontade, abre mão da sua casa, para que você, ao visitá-lo e depois de uma boa farra, regada a pinga e galinha velha, possa pernoitar em sua casa, mesmo sem conhecê-lo direito!
Sertão é meu avô, Mr. Antônio Domingos, um Gentleman! E não se espantem se falando de um sertanejo utilizo meu parco inglês… Meu avô, por ser semi-analfabeto, não tinha o mínimo conhecimento acadêmico, quiçá de línguas… Mas em termos de gentileza, humor com delicadeza (diferente do meu, por vezes ferino…) e atenção humana, foi mais que “Lord Inglês”… Foi figura ícone em minha vida!
Sertão é ter tanta força musical, que perpassa o agreste e produz um Gênio, como Hermeto Pascoal, que bebeu nas raízes sertanejas a sua música mundial e, até hoje, no meio jazzístico, é conhecido como “O Homem dos Mil Instrumentos”; tocando do Piano ao Triângulo, do Pífano ao Trumpete-Jazz, das Sanfônicas às Sinfônicas!
Sertão é o Sr. João Batista do Vale, o maranhense João do Vale, que fez carreira independente de Gonzaga e passou muito tempo no ostracismo, por ter uma militância política mais arrojada que a do Rei e, por isso, foi perseguido e escondido, principalmente depois de sua participação no show “Opinião”, onde interpretou musicalmente um camponês sem-terra sertanejo! Ressurgiu com força nos anos 80; afinal, “Carcará pega mata e come…”
Mas, além de todo esse sentimento nostálgico, algo me chamou muita atenção no filme… A fragilidade e os problemas do Homem Gonzaga…
Desde os tempos de universidade que admiro Luiz Gonzaga Júnior, o Gonzaguinha, como poeta ousado, como sambista eruditamente do povo e, sabia, somente superficialmente, de seus problemas com o pai. Ao aprofundar isso, às vias da flor da pele, o filme desmistifica os ícones e nos expõe seres humanos em crises de relacionamento, que desembocam existenciais. Seres choram por dentro e por fora suas angústias… Gonzaga de um amor frustrado pela inocência diante da arrogância, Gonzaguinha pela falta de proteção que não teve do pai, apesar de se colocar tão altaneiro em suas militâncias vida a fora!
Nunca devemos confundir a figura de um ídolo, com seu campo pessoal e seus humores, com sua arte. Tenho um amigo que era fã incondicional de um outro ícone sertanejo, este clássico: O maestro e cantador de Árias Sertânicas Elomar Figueira de Melo (O Elomar)… Certo dia foi a um show do referido artista, comprou um de seus CDs e foi pedir um autógrafo no momento em que Elomar estava empolgado em uma conversa com uma mulher; o interrompeu e foi mal tratado por ele que autografou o CD de cara feia… Resultado?? Passou a desprezar a obra do artista!
Minha primeira decepção, nesse campo, refere-se a um artista que sempre admirei, por saber fundir como ninguém o romantismo com o jazzístico e interpretá-los, separadamente, como ninguém… Elegância… Senhor dos Palcos… Mr. Frank Sinatra!
Qual não foi meu estarrecimento, diante de notícias que veiculara-se, dando conta que Sinatra, no início de sua carreira, ganhou um empurrãozinho, do tão demonizado, Al Capone! Mas, depois, pensei: “Se hoje é demonizado, antes era endeusado… Se não, não teria força para o empurrãozinho, não é mesmo? E decidi que estas, sempre escusas e escondidas nuances do poder das vitrines, não poderiam apagar os belos momentos que ele nos presenteou no Século XX!
Sabendo que já cansei, a você leitor, que teve a paciência de me ler até aqui, termino fazendo uma provocação:
Quantos de nós deixamos de ser ícones em nossa própria casa, devido a se carregar de atitudes, que a barra da vida põe em nossa mente?
Quantos de nós queremos ser ícones no trabalho como intocáveis, quando essa atitude é somente como muralha para esconder sensibilidades, reconhecimentos de erros passados e presentes, pedidos engasgados de perdão… Sentir-se, como diria Friedrich Nietzsche: “Humano Demasiado Humano”??
Antes que alguém se sinta atingido, declaro que já me senti e, às vezes, me sinto assim…
Viva O Nosso Gonzaga!
Que Vivam os Gonzagas Que Há em Nós!

* É Fiscal e atual Secretário de Finanças de Arapiraca.

5 de fevereiro de 2013

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