5 de fevereiro de 2013

MACARRÃO – O Craque do Acaso

Estava quase em cima da hora. Faltavam uns poucos minutos para as dez horas daquela manhã de domingo. Era dia do trem das dez, que saia de Palmeira para Maceió três vezes na semana – terças, quintas e domingos.
A locomotiva estava lá na frente do comboio misto, de passageiros e carga, soltando a todo instante o excesso do vapor que se acumulava na sua caldeira. Os vagões de cargas e de passageiros, estacionados paralelamente, ao longo da plataforma. O vai-e-vem de muita gente que ia viajar, misturada às que foram acompanhando algum parente até o embarque, ou dos curiosos que ali estavam porque não tinham algo mais interessante para fazer, agitavam o local numa intensa movimentação. Os vendedores ambulantes que andavam apressados de um lado para o outro anunciando aos gritos, os seus produtos – “Pitooombas!… Roletes de caaana!… Laraaanjas!… Cocaaadas!… Picolééés…!” E os carregadores de bagagens iam e vinham, de uma ponta a outra da plataforma, oferecendo seus serviços.
Todos nós, que fazíamos parte do América Futebol Clube, formado por Zé Veloso Pimentel, também íamos embarcar. Jogaríamos contra o time principal da cidade de Paulo Jacinto. Alguns já estavam acomodados nas poltronas de um dos vagões da primeira classe, enquanto outros ainda estavam na plataforma à espera de Zé Veloso que fora comprar os bilhetes de viagem.
O soar da sineta alvoroçou todo mundo e nos fez correr para os nossos lugares dentro do vagão. O longo silvo do apito do chefe da estação, nós escutamos com o sinal para a partida do trem. O apitar da locomotiva agitou mais ainda toda aquela gente. Recados apressados se ouviam, misturados ao barulho do comboio. O forte chiado e cheiro dos vapores libertos das caldeiras, os agitados acenos de despedida e o ranger das rodas de ferro sobre os trilhos marcavam o início da viagem.
Havíamos acabado de passar pela Rua do Galo Assanhado (hoje, D. Otávio Aguiar) e as brincadeiras da nossa turma já haviam dado início às gozações. Eram apelidos, empulhações, e até uma cantoria, sempre lembrada nas nossas viagens, com o refrão que ainda hoje se costuma entoar: “Ô Amaro, Ô Amaro…!”, entremeada de improvisados versos. Na maioria, iam sendo “puxados” por algum “talentoso repentista” do grupo. Eram sempre em tom de galhofa, e atingiam a todos nós. Daquela brincadeira não escapava ninguém. O tempo de quase duas horas, até Paulo Jacinto, foi passando sem ser percebido, diante da algazarra que chegava a contagiar os demais passageiros do nosso vagão. Era mesmo divertido e, naquele clima descontraído, íamos deixando ao longo dos trilhos que ficavam para trás, Anum Novo, Anum Velho, Quebrangulo, Vila São Francisco… até chegarmos ao nosso destino, por volta do meio-dia.
A “delegação” do América era formada de quinze pessoas. Os que acompanhassem o grupo, além desse número, viajavam por conta própria. Estes iam somente atraídos pelo passeio de um dia de domingo, fora da rotina, ou para fazer parte da nossa reduzida torcida, em terras alheias.
Naquela época, os moldes em que eram firmados os acordos (contratos) entre times amadores, muitas vezes, não resultavam em lucros. Para aquele jogo o acordo incluía: almoço para quinze pessoas e uma pequena cota em dinheiro. Esta não deu para cobrir as despesas com as passagens!… O lucro ficou apenas no puro prazer do jogo de futebol.
Antes mesmo de chegarmos ao local do jogo, Zé Veloso, que acumulava as funções de: dirigente técnico e jogador, era quem decidia quem seria escalado para ir a campo como titular ou como reserva.
Por ser um dos fundadores do América, e sempre acompanhá-lo nos jogos em Palmeira (e fora dela) quase sempre, eu tinha o meu lugar garantido no banco de reservas. Com certeza, não era pelo futebol que eu jogava que, na verdade, não era lá grande coisa, e sim pela consideração de Zé Veloso.
Aquele segundo tempo da partida estava bastante disputado. O placar ainda era o mesmo da primeira etapa – 1×1. Nós é que havíamos empatado o jogo. Veloso já havia feito duas substituições. No banco só restava o reserva do goleiro e… advinha!… Eu.
Um dos nossos jogadores, porém, não estava bem em campo naqueles últimos quinze minutos do jogo. Havia se machucado numa dura disputa de bola e estava mancando no meio do campo. Zé Veloso, na sua função de técnico, de vez em quando olhava indeciso para o lado onde estavam sentados os seus jogadores, tanto os que haviam sido substituídos, quanto os dois reservas – o goleiro e eu. Hesitou, por alguns instantes, antes de se decidir pela última troca de jogador. Faltavam uns onze ou doze minutos para o final, e o jogo continuava empatado. Fez sinal para que eu me preparasse e, corajosamente, assumiu o risco de me mandar entrar em campo.
A minha ficha física, naquele ano de 1957, era bem diferente da de hoje e tinha os seguintes dados: pesava sessenta e cinco quilos, “bem distribuídos” no meu esqueleto de um metro e oitenta e dois de altura. Comprido e magro, “como um dia de fome”.
A minha primeira ação no jogo foi uma carreira pelo lado esquerdo do ataque, bem próximo do lugar onde se concentrava a maior parte da torcida paulojacintense. Foi só acompanhando a jogada. Mas, ouvi claramente, e principalmente, de um bloco de garotas, o novo nome com o qual eu havia sido agraciado: “Macarrão Brandim”!… Certamente, inspirado na minha magreza e nas finas e compridas pernas de pele branca. O coro, repetidamente, clamava pelo meu novo nome. Eu escutava todas as vezes que eu tocava na bola, ou participava de alguma jogada por aqueles lados do campo.
Corri em campo, sem nenhum proveito, por uns seis minutos, desde a minha entrada. A minha atuação não tinha sido de grande valia para o nosso time, pois eu apenas preenchia o espaço do campo, no lado contrário às minhas poucas habilidades na prática do futebol. Só chutava com o pé direito e fui jogar de ponteiro esquerdo.
Chutada por um dos “beques” do meu time, na cobrança de um tiro-de-meta, vejo a bola vindo pelo alto na minha direção. Bateu uma vez no chão duro sem grama, ganhando nova altura. Corri, acompanhando a sua trajetória que continuava vindo pro meu lado. Como eu tinha visto alguns atacantes de camisa azul – que era a do nosso time – se aproximando da área adversária, tentei ser rápido no passe longo. De primeira, como se diz no futebol, sem deixar que a bola tocasse pela segunda vez no chão, arremessei, quase da intermediária do campo, também pelo alto, com um forte chute para a entrada da área. O imprevisível aconteceu. O chute fortíssimo que tinha a intenção de passe, tomou o rumo do gol e encontrou o goleiro numa posição avançada e que nada pode fazer para evitar que a bola entrasse no alto da trave. Gol do “Macarrão Brandim”, quase no último minuto da partida e o placar de 2×1 pro América Futebol Clube que saiu dali como vencedor, com um gol do “acaso”.
E assim, está contada aqui a minha maior “façanha” no futebol de campo, onde, por sinal, não era a “minha praia”.
E à noite, na praça em frente da estação, enquanto aguardávamos o trem da volta, desfilei abraçado a uma namoradinha que havia conquistado naquela cidade. Era exatamente a menina que mais gritava lá no campo, com voz esganiçada: “Macarrão Brandiiim!!!”

J. Geraldo Passos é membro da Academia Palmeirense de Letras Ciências e Artes – APALCA

5 de fevereiro de 2013

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